Ignorar links
Logótipo do projeto Ponto P

Comportamentos de risco nos jovens: desafios emergentes exigem respostas de proximidade e imediatas

A juventude é uma fase de crescimento, descoberta e construção da identidade. Caracterizada pela procura de autonomia, pela influência do grupo de pares e pela necessidade de experimentar novas sensações, representa também um período de maior vulnerabilidade à adoção de comportamentos de risco.

Consumo de substâncias e consequências

Os dados mais recentes do ICAD, relativos aos jovens portugueses de 18 anos revelam uma realidade que merece atenção. O consumo de bebidas alcoólicas continua a apresentar valores muito elevados, com cerca de 77% dos jovens a referirem ter consumido álcool pelo menos uma vez na vida e 74% nos 12 meses anteriores ao inquérito. O tabaco surge igualmente com prevalências significativas, sendo referido por 44% dos jovens ao longo da vida e por 38% no último ano.

No que respeita às substâncias ilícitas, entre 26% e 29% dos jovens admitem já ter experimentado pelo menos uma droga ilícita, sendo a canábis a substância mais consumida, com uma prevalência de cerca de 24% ao longo da vida.

Contudo, mais do que a experimentação, preocupa a forma como estes consumos ocorrem. Quase metade dos jovens (48%) refere ter praticado binge drinking – consumo excessivo de álcool num curto espaço de tempo – durante o último ano. Mais de metade (58%) relata episódios de embriaguez ligeira e cerca de um terço (33%) episódios de embriaguez severa.

Outro dado relevante é o policonsumo. Cerca de 21% dos jovens afirmam ter consumido mais do que uma substância psicoativa na mesma ocasião, incluindo álcool, tabaco e substâncias ilícitas. Esta associação aumenta significativamente os riscos para a saúde, potencia comportamentos impulsivos e dificulta a perceção do perigo.

As consequências destes consumos são cada vez mais evidentes. Atualmente, cerca de 31% dos jovens relatam ter experienciado problemas associados ao consumo de álcool e 16% problemas relacionados com o consumo de substâncias ilícitas. Entre as situações mais frequentemente reportadas encontram-se o mal-estar emocional, conflitos familiares, dificuldades escolares ou profissionais, problemas financeiros, comportamentos violentos e relações sexuais desprotegidas.

Particularmente preocupante é o aumento consistente destes indicadores ao longo dos últimos anos. Entre 2016 e 2024, a percentagem de jovens que refere problemas relacionados com o consumo de álcool aumentou de forma significativa, passando de 19% para 31%. O crescimento das situações de sofrimento emocional e das relações sexuais sem proteção associadas ao consumo constitui uma das principais preocupações dos profissionais da área.

Sexualidade e saúde

A sexualidade continua igualmente a constituir uma área prioritária de intervenção. A antecipação da idade da primeira relação sexual observada nas últimas décadas, associada à diminuição da utilização consistente de métodos de proteção em alguns grupos, aumenta a vulnerabilidade a infeções sexualmente transmissíveis (IST), gravidezes não planeadas e outras consequências para a saúde sexual e reprodutiva.

Apesar dos avanços alcançados na prevenção, Portugal continua a registar uma das taxas de diagnóstico de VIH mais elevadas da União Europeia, cerca de três vezes superior à média europeia. Paralelamente, tem-se assistido ao aumento do número de casos de infeções sexualmente transmissíveis, destacando-se a gonorreia, a clamídia e a sífilis.

Os especialistas associam esta realidade a múltiplos fatores, incluindo alterações nos padrões de relacionamento, a existência de múltiplos parceiros sexuais, a utilização inconsistente do preservativo e lacunas ao nível da educação sexual e da literacia em saúde sexual. Acrescem ainda dificuldades na adesão aos testes de rastreio e às estratégias preventivas disponíveis.

Importa também sublinhar que muitos comportamentos sexuais de risco ocorrem associados ao consumo de álcool e outras substâncias psicoativas. A desinibição provocada por estas substâncias pode comprometer a capacidade de decisão e aumentar a probabilidade de relações sexuais sem proteção, contribuindo para a transmissão de infeções e outras consequências para a saúde.

Gaming, gambling e novas substâncias

Mas os desafios atuais da juventude não se limitam ao consumo de substâncias e à sexualidade. Nos últimos anos tem-se observado uma crescente preocupação com os comportamentos de gaming e gambling, particularmente associados às plataformas digitais e às apostas online.

A facilidade de acesso, a procura constante de recompensas imediatas e os mecanismos de gratificação presentes nestas atividades podem favorecer padrões de utilização excessiva, potenciando problemas ao nível da saúde mental, do rendimento escolar, das relações interpessoais e da gestão financeira. Quando associados ao consumo de álcool ou outras substâncias, estes comportamentos podem amplificar ainda mais os riscos.

A realidade dos consumos tornou-se igualmente mais complexa devido ao aparecimento contínuo de Novas Substâncias Psicoativas (NSP). Atualmente, mais de 950 substâncias encontram-se monitorizadas pela Agência da União Europeia para as Drogas (EUDA), tendo sido identificadas 26 novas substâncias apenas em 2023.

Entre as tendências mais preocupantes destacam-se as catinonas sintéticas, os novos opioides sintéticos e os canabinoides sintéticos. Estas substâncias surgem frequentemente comercializadas sob designações conhecidas, mas com composições químicas distintas e efeitos imprevisíveis.

Esta situação faz com que muitos consumidores desconheçam aquilo que estão efetivamente a consumir. Em diversos casos, a substância adquirida não corresponde à substância ingerida, aumentando significativamente o risco de intoxicações graves, overdoses e outras complicações médicas.

Também o consumo de ketamina tem vindo a aumentar em vários países europeus, incluindo Portugal, particularmente em contextos de vida noturna. Embora frequentemente percecionada como uma droga recreativa de baixo risco, o seu consumo regular pode estar associado a problemas urinários graves, alterações cognitivas e desenvolvimento de dependência.

A insuficiência de serviços de drug checking, que permitem analisar a composição das substâncias antes do consumo, constitui outro desafio importante. A falta de informação sobre o conteúdo real das substâncias dificulta não só a tomada de decisões informadas por parte dos consumidores, mas também a intervenção dos profissionais de saúde em situações de urgência.

Prevenção e proximidade

Perante uma realidade em constante transformação, a prevenção assume um papel cada vez mais relevante. Mais do que transmitir informação, prevenir significa criar espaços de diálogo, promover competências pessoais e sociais e capacitar os jovens para fazer escolhas conscientes e responsáveis.

O projeto Ponto P

Foi precisamente com este objetivo que surgiu, em 2009, o Ponto P, um projeto comunitário de prevenção e redução de comportamentos de risco desenvolvido no concelho de Santa Maria da Feira.

Resultado de uma parceria entre diversas entidades, o projeto conta atualmente com a colaboração da Câmara Municipal de Santa Maria da Feira, do Instituto para os Comportamentos Aditivos e as Dependências – ICAD, da FAPFEIRA, da Associação Prazer de Viver, da PSP, da GNR e da Associação Ser + Pessoa.

O Ponto P tem como missão sensibilizar para a prevenção e redução de comportamentos de risco associados à sexualidade e ao consumo de substâncias, promovendo simultaneamente estilos de vida saudáveis e decisões mais conscientes.

Ao longo dos anos, a iniciativa marcou presença em diversos eventos recreativos e de lazer do concelho, como a Viagem Medieval, festivais de juventude, bares, discotecas e outras atividades frequentadas por jovens, tendo participado no último Festival Imaginarius. Nestes contextos, procura constituir-se como um espaço de esclarecimento de dúvidas, reflexão, consciencialização e prevenção, aproximando a informação e os recursos de quem mais deles necessita.

Atualmente, o projeto encontra-se em fase de reativação e está a recrutar jovens para integrarem a nova equipa de mediadores sociais. Procuram-se jovens, dinâmicos, empáticos e motivados para contribuir ativamente para a promoção da saúde e do bem-estar da comunidade, assumindo um papel de proximidade junto dos seus pares. Os jovens interessados em integrar a equipa de mediadores sociais podem realizar a sua inscrição online através da página de Instagram do Ponto P. Esta é uma oportunidade para participar ativamente nas ações desenvolvidas pelo projeto, marcar presença nos diferentes contextos recreativos e de lazer do concelho e contribuir com as suas ideias, opiniões e experiências para a construção de respostas preventivas mais próximas da realidade juvenil.

O regresso ao terreno está já marcado para os dias 24 e 25 de julho, no Festival da Juventude, que decorrerá no Parque da Cidade de Lourosa, onde o Ponto P voltará a marcar presença junto da comunidade juvenil do concelho.

Num momento em que os comportamentos de risco se tornam cada vez mais diversificados e complexos, iniciativas como o Ponto P demonstram que a prevenção continua a ser uma das ferramentas mais eficazes para promover comunidades mais informadas, saudáveis e resilientes. Afinal, investir na prevenção é investir no futuro.

Equipa Ponto P

Ponto P no Instagram em pontopsmf
Acompanhe o Ponto P no Instagram: @pontopsmf

Fontes

Comportamentos Aditivos aos 18 anos – Inquérito aos jovens participantes no Dia da Defesa Nacional 2024: consumos de substâncias psicoativas (ICAD, 2025)

Comportamentos aditivos com e sem substância em adolescentes: relação com a idade e o sexo, Revista Portuguesa de Enfermagem de Saúde Mental. Consultar estudo.

Portugal continua acima da média europeia em casos de VIH e de sida.

Jovens iniciam vida sexual mais tarde e com menos proteção.